Ao revisitar Cegos, Surdos e Loucos, Antoniel Bastos, presidente do Instituto Rede Incluir e estrategista de inclusão corporativa, encontrou nas situações vividas pelos personagens reflexões que continuam presentes no mundo do trabalho.
Há filmes que envelhecem. Outros continuam fazendo perguntas. Foi assistindo novamente a Cegos, Surdos e Loucos, lançado em 1989, que percebi que talvez aquele filme pudesse ser muito mais do que uma comédia policial para quem trabalha com inclusão. Quase quatro décadas depois, resolvi assisti-lo novamente com outro repertório. Não apenas como espectador, mas como profissional que há mais de três décadas trabalha com pessoas, empresas, empregabilidade e inclusão. E foi assim que encontrei dez cenas capazes de provocar uma conversa muito atual sobre o mundo do trabalho.
Antes de qualquer coisa, é preciso compreender a época. Em 1989, a discussão sobre deficiência, acessibilidade e inclusão profissional ainda estava muito distante do repertório que construímos no século XXI. A cultura popular frequentemente utilizava a deficiência como elemento de humor. Hoje, conseguimos assistir a essas produções com uma leitura mais crítica, sem deixar de reconhecer o contexto histórico em que foram realizadas. Talvez essa seja a primeira lição: não precisamos apagar o passado para evoluir. Precisamos compreendê-lo.
1. A primeira oportunidade - Wally chega à banca de Dave procurando trabalho. Dave, que administra o estabelecimento, decide contratá-lo. A cena pode parecer simples, mas existe ali uma questão que continua absolutamente contemporânea: o acesso ao trabalho. Antes de ser uma pessoa com deficiência, Wally é alguém procurando uma oportunidade. É justamente esse ponto que considero fundamental quando falamos de empregabilidade. Uma pessoa não pode ser resumida à característica que mais chama atenção. Precisamos conhecer sua história, suas competências, seus interesses e aquilo que ela pode oferecer. Uma boa inclusão começa quando a pergunta deixa de ser “o que essa pessoa não consegue fazer?” e passa a ser “o que ela sabe fazer e quais condições precisa para realizar seu trabalho?”.
2. Quando a comunicação não funciona - O primeiro contato entre Dave e Wally é marcado por desencontros. Eles possuem formas diferentes de perceber o ambiente e precisam descobrir como estabelecer uma comunicação possível. É uma situação engraçada no filme, mas extremamente séria no ambiente profissional. Quantas vezes uma dificuldade de comunicação é interpretada como falta de interesse, incapacidade ou resistência? Comunicação inclusiva não significa apenas disponibilizar uma ferramenta. Significa compreender que pessoas diferentes podem precisar de formas diferentes de acesso à informação. Às vezes, a barreira não está na pessoa. Está na maneira como estamos tentando nos comunicar com ela.
3. Quando uma competência completa a outra - Essa talvez seja uma das cenas mais importantes de todo o filme. Quando acontece o assassinato próximo à banca, Wally percebe o que aconteceu por meio do som, enquanto Dave consegue identificar visualmente elementos que Wally não consegue acessar. Separadamente, cada um possui apenas parte das informações. Juntos, possuem uma percepção muito mais completa da situação. Aqui está uma das maiores provocações para o ambiente corporativo. Competências diferentes não precisam competir. Podem se complementar. Essa é uma das bases do meu trabalho com inclusão: ajudar organizações a perceberem que diversidade não representa apenas uma necessidade social. Também pode ampliar perspectivas, experiências e formas de solucionar problemas.
4. Quando a polícia não consegue compreender o que eles estão dizendo - Depois do crime, Dave e Wally são tratados como suspeitos. A dificuldade de comunicação contribui para que suas versões sejam mal compreendidas. O problema não está apenas naquilo que eles conseguem explicar. Está também na capacidade de quem está do outro lado de compreender a forma como aquela informação está sendo apresentada. No mundo corporativo, isso nos ensina algo importante: não basta oferecer espaço para uma pessoa falar. É preciso criar condições para que ela seja compreendida. Isso vale para processos seletivos, treinamentos, reuniões, avaliações de desempenho e desenvolvimento de carreira.
5. Quando eles percebem que precisam um do outro - Ao longo da história, Dave e Wally deixam de tentar resolver tudo individualmente e passam a confiar nas habilidades um do outro. Essa transformação é interessante porque a inclusão também exige mudança de perspectiva. Não se trata de transformar alguém em dependente. Trata-se de reconhecer que todos nós, em algum momento, dependemos de conhecimentos, habilidades e experiências que não possuímos. A diferença é que, quando falamos da pessoa com deficiência, essa interdependência muitas vezes é confundida com incapacidade. Não é.
6. A cena do carro - Em determinado momento, Wally assume a direção enquanto Dave fornece orientações. A situação é completamente absurda dentro da lógica de uma comédia. Mas, olhando com os olhos de um estrategista de inclusão, existe uma metáfora poderosa ali. Um conduz. O outro orienta. Cada um utiliza aquilo que possui para compensar aquilo que o outro não consegue acessar da mesma maneira. É praticamente uma aula improvisada sobre complementaridade de competências. No trabalho, equipes eficientes também funcionam assim. Nem todos precisam fazer tudo. Precisam saber como contribuir.
7. Quando precisam improvisar uma solução - Em diferentes momentos da fuga, os dois precisam adaptar comportamentos, comunicação e estratégias para conseguir avançar. Essa capacidade de adaptação também está presente no debate contemporâneo sobre acessibilidade. Tecnologia assistiva, recursos de comunicação, adaptações razoáveis e reorganização de tarefas não devem ser vistos como privilégios. São instrumentos que podem permitir que uma pessoa exerça plenamente sua capacidade profissional. E existe uma diferença enorme entre adaptar uma condição de trabalho e reduzir a expectativa sobre o profissional. Acessibilidade não significa diminuir o padrão. Significa criar condições para que o potencial possa aparecer.
8. Quando a autonomia aparece - Ao longo do filme, Wally demonstra que não quer ser tratado apenas como alguém que precisa ser conduzido. Dave também enfrenta suas próprias inseguranças. Essa dimensão humana é importante. Inclusão não é superproteção. Uma organização inclusiva precisa saber apoiar sem infantilizar, adaptar sem limitar e oferecer suporte sem retirar autonomia. No ambiente corporativo, isso significa permitir que a pessoa participe das decisões sobre seu próprio trabalho, desenvolvimento e trajetória.
9. A revelação final sobre Sutherland - Perto do final, surge uma situação especialmente interessante: Sutherland, um dos personagens envolvidos na trama, também é cego. Em determinado momento, sua capacidade de utilizar a audição ganha importância para a ação. Essa inversão é quase uma brincadeira do roteiro, mas também pode ser lida como uma provocação. A deficiência não determina sozinha aquilo que uma pessoa pode ou não pode fazer. O contexto, as competências, os recursos disponíveis e as condições oferecidas também fazem parte dessa equação. É exatamente por isso que, quando uma empresa avalia uma pessoa com deficiência, não deveria olhar apenas para a condição. Deveria olhar para a função, as competências, as exigências reais do trabalho e as possibilidades de acessibilidade.
10. O que o filme deixa depois dos créditos - Talvez a cena mais importante não esteja exatamente em uma sequência específica. Está naquilo que fica depois que a história termina. Dave e Wally não vencem porque deixam de ser diferentes. Eles avançam porque aprendem a trabalhar com suas diferenças. E talvez seja essa a grande lição que um filme de 1989 pode oferecer ao mundo corporativo de 2026. Não precisamos transformar as pessoas para que elas caibam no ambiente de trabalho. Precisamos transformar ambientes que ainda não sabem aproveitar diferentes talentos.
E é justamente aí que entra o Instituto Rede Incluir. É nesse espaço que encontro a razão de existir do Instituto Rede Incluir. Ao longo da nossa trajetória, percebi que muitas empresas querem avançar na inclusão, mas nem sempre sabem por onde começar. Da mesma forma, existem pessoas com deficiência preparadas, com talentos, experiências e vontade de trabalhar, mas que ainda encontram barreiras para chegar às oportunidades. Foi nesse intervalo que decidimos atuar. O Instituto existe para ajudar a transformar intenção em prática. Por meio de nossos programas e projetos, trabalhamos com empregabilidade, acessibilidade, desenvolvimento humano, formação, liderança e cultura inclusiva. Apoiamos empresas na identificação de barreiras e na construção de ambientes mais preparados para receber, desenvolver e valorizar pessoas com deficiência. Ao mesmo tempo, trabalhamos para ampliar as possibilidades de acesso das pessoas às oportunidades profissionais. Não acreditamos em colocar empresas e pessoas em lados opostos. Acreditamos em compreender os dois lados. A empresa tem suas necessidades, seus processos, sua cultura e seus desafios. A pessoa tem suas competências, sua história, suas necessidades de acessibilidade e seus objetivos profissionais. O papel de quem trabalha com inclusão é justamente ajudar a construir o caminho possível entre essas realidades. Essa é a nossa razão de existir.
Quase quatro décadas depois. Quando Cegos, Surdos e Loucos chegou aos cinemas, em 1989, o mundo discutia deficiência com outro vocabulário e outro nível de compreensão. Hoje, temos novos conceitos, novas tecnologias, novas legislações e uma sociedade muito mais consciente sobre acessibilidade e inclusão. Mas ainda temos uma tarefa pela frente. Aprender continuamente, Aprender a selecionar melhor, Aprender a liderar melhor, Aprender a comunicar melhor, Aprender a adaptar ambientes, Aprender a reconhecer talentos que, durante muito tempo, ficaram escondidos atrás de barreiras. Talvez seja por isso que eu tenha gostado tanto de rever esse filme. Não porque ele apresente um modelo perfeito de inclusão. Não apresenta. Mas porque, quase quarenta anos depois, ele nos permite fazer uma pergunta muito mais importante: O que conseguimos aprender desde 1989 e o que ainda precisamos aprender para que diferentes pessoas possam participar plenamente do mundo do trabalho? Como presidente do Instituto Rede Incluir e como estrategista de inclusão corporativa, continuo acreditando que a resposta não está em escolher um lado. Está em construir caminhos. Porque inclusão não é fazer pessoas diferentes caberem em um mesmo molde. É criar ambientes onde diferentes pessoas possam revelar o que têm de melhor. E talvez essa seja a verdadeira transformação. O filme continua sendo o mesmo. Quem mudou foi o nosso olhar.
Antoniel Bastos
Presidente do Instituto Rede Incluir
Estrategista de Inclusão Corporativa e Inclusão, Empregabilidade e Desenvolvimento Humano
